Manifesto do povo U’wa

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Deixamos abaixo a mensagem do povo Uwa para a humanidade, uma leitura introdutória pode ser encontrada AQUI.

O manifesto foi apresentado por Berito Kuwaru’wa (Berito Cobaría), presidente das autoridades tradicionais de U’wa, no Fórum Nacional sobre Meio Ambiente em Guaduas, na Colômbia, em 1997.

Manifiesto del Pueblo U'wa

Benito Cobería, Cacique do Povo U’wa

Nascemos como filhos da terra… isso não podemos mudar, nem os índios, nem o homem branco (riowa). Mais de mil vezes e de mil maneiras diferentes, dissemos que a Terra é nossa mãe, que não podemos e não queremos vendê-la, mas o homem branco parece não ter entendido, insiste em em que cedamos, vendamos ou maltratemos nossa terra, como se o índio também fosse um homem de muitas palavras.

Nos perguntamos: será costume do homem branco vender sua mãe? Nós não sabemos, mas o que nós, U’WA, sabemos, é que o homem branco usa a mentira como se gostasse dela, sabe como enganar, mata seu próprio filho sem mesmo permitir que seus olhos vejam o sol, nem seu nariz cheire a erva, isso é algo abominável, mesmo para um “selvagem”.

A lei do nosso povo difere da do branco, porque a lei de riowa vem dos homens e está escrita no papel, enquanto a lei de nosso povo foi Sira (Deus) que a ditou e escreveu no coração de nossos Weryajas sábios (xamãs). O respeito ao vivo e ao não vivo e ao conhecido e ao “desconhecido” faz parte da nossa lei: nossa missão no mundo é narrá-la, cantá-la e cumpri-la para sustentar o equilíbrio do universo.

Nossa lei u’wchita é um dos bastões que sustenta o mundo. Nossa lei é tão antiga como a própria Terra, nossa cultura foi organizada seguindo o modelo de criação, por isso, nossa lei é não carregar o que não é necessário e é a mesma em todas as partes, porque é a lei da terra e a terra é uma só. Nossa lei não vai morrer!

Se houver leis do homem branco que protejam a mãe terra e seus guardiões povos indígenas – que se cumpram; se não forem cumpridas, serão consideradas não escritas.

Sabemos que o riowa colocou um preço em tudo o que vive e até mesmo na própria pedra, negocia com seu próprio sangue e quer que façamos o mesmo em nosso território sagrado com ruiria – o sangue sagrado da terra que eles chamam de petróleo. Tudo isso é estranho aos nossos costumes. Todo ser vivo tem sangue: toda árvore, todo vegetal, todo animal, a terra também; e esse sangue da terra, ruiria (petróleo), é o que dá força para todos, para plantas e homens.

Mas perguntamos ao riowa, “como se coloca preço à mãe, e qual é esse preço?”. Perguntamos não para desprendermos da nossa, mas para entendê-lo mais, porque depois de tudo, se o urso é nosso irmão, mais ainda o é o homem branco.

Nós perguntamos isso, porque acreditamos que ele, por ser “civilizado”, talvez conheça uma maneira de colocar um preço sobre sua mãe e vendê-la, sem cair na vergonha em que cairia um primitivo. Porque a terra que pisamos não é só terra, é pó de nossos antepassados; por isso caminhamos descalços, para estar em contato com eles.

O riowa não quis entender que se nos separássemos da mãe terra, o tempo, onde quer que se encontre, se iria com ela – o espírito de nossos ancestrais, nosso presente e nosso futuro. Todo ser vive até que cumpra a sua função de tempo que Sita lhe a encomendado… já não teria tempo, já não teria vida, deixaríamos de existir.

A floresta é o cordão umbilical que nos une à existência, nós sobrevivemos graças a ela e ela sobreviveu graças ao seu respeito. Nossa separação traria um vazio que engoliria tudo, exceto o deserto.

O futuro do homem branco se nubla com cada gota de óleo que ele derrama na transparência de nossos rios, seu destino se torna mais letal com cada gota de pesticida que deposita neles. Nossos rios não são apenas rios; através deles nos comunicamos com nossas divindades, são mensageiros e as mensagens fluem em ambos os sentidos. Se eles se sujam ou morrem, já não saberíamos o que querem os deuses, assim como os deuses não escutariam nossos chamamos, nem nossos agradecimentos, então, provocaríamos sua ira. Os rios, em toda nossa terra, já estão muito bravos com os riowa.

Os governantes brancos dizem à sociedade que nosso povo índio é selvagem, nos apresentam como seus inimigos e como inimigos do riowa maior, ao que eles chamaram de progresso, e frente ao qual os outros riowa e todos os povos do mundo temos que nos ajoelhar. Nós perguntamos: “o que é mais importante, a máquina ou o homem que inventou a máquina?”.

O que sabemos é que todo aquele que atente contra a mãe terra, contra seus filhos, quem agrida à terra, nos agride a todos, aos que vivemos hoje e aos que logo virão. Para o índio, a terra é mãe, para o branco, inimiga; para nós, suas criaturas são irmãs, para eles, só mercadoria.

A riowa sente prazer com a morte, deixa nos campos e em suas cidades tantos homens estendidos como árvores derrubadas na selva.

Nós nunca cometemos a insolência de violar igrejas e templos do riowa, mas eles, sim, vieram profanar nossas terras.

Então nos perguntamos: quem é o selvagem?

Manifiesto del Pueblo U'wa

Habitantes do Povo U’wa

O homem branco declarou guerra a tudo, exceto à sua pobreza interior. Ele declarou  guerra ao tempo e até  a si mesmo, como outro irmão indígena de uma aldeia distante disse: “o homem branco cavalga sobre o progresso em direção a sua própria destruição”.

Não contente com declarar a guerra à vida, ele declarou também à morte; não sabe que a vida e a morte são dois extremos de um mesmo corpo, dois extremos de um mesmo anel. Não há morte sem vida, assim como não há vida sem morte. Os U’WA cuidamos do mundo material e espiritual desde sempre, por isso entendemos isso.

O riowa enviou pássaros gigantes para a lua. Dizemos a ele que a ame e a cuide, que não pode ir pelo universo fazendo a cada astro o que fizeram às árvores do bosque daqui da terra e, a seus filhos, lhes perguntamos: “quem fez o metal com o que se construiu cada pluma que cobriu ao grande pássaro? Quem fez o combustível com o qual se alimentou? Quem fez ao mesmo homem que dirigiu e fabricou o pássaro?”. O riowa não deve enganar, nem mentir a seus filhos, deve ensinar que, ainda que seja para construir um mundo artificial, o homem necessita da mãe terra; por isso ela deve ser amada e cuidada.

O riowa insistirá em que vendamos a terra e nos dirá: “de que importa a vergonha a um selvagem que mantém sua cara escondida entre o espessor da selva, nas sombras das montanhas e no véu da névoa?”. Então, uma vez mais trataremos de lhe fazer entender que se isso sucedesse, a vergonha não embargaria apenas ao U’WA; mas à anta, ao paujil, às tesourinhas, ao jaguar, ao gamba, à raposa, ao milho, à coca, ao yopo e a todos nossos irmãos animais e nossas irmãs plantas, quem sempre serviram de companhia e alimento ao nosso povo; morreriam de kira (tristeza), pois em nossa grande família não se conhece o que o riowa chama de traição e a terra choraria tanto que do último pico do Rubracha (nevado do Cucuy), baixaria Abara, a deidade que guarda as águas malignas.

Abara guiaria as lágrimas da terra e se uniria com Cuiya, o dono e senhor da terra; e de sua copulação, surgiria, desde a escuridade do mundo debaixo, Yara. Yara é terremoto; cobra e dor, então, Yara, uma gigante serpente de lodo, produto da copulação da deidade que custodia as águas malignas e do senhor da terra, se deslizaria por entre as montanhas buscando os vales e, a seu passo, tragaria por igual a índios e a brancos, a ferros e a árvores, a malocas e a acampamentos. Arrastaria por igual ao peru do U’WA e ao cavalo do riowa.

Até então, a tristeza já teria varrido ao espírito do último U’WA que restará na terra. Quando isso suceda, o governo ficará sozinho, para que brigue com o mundo da escuridão e dos tremores. Já não terá quem cante para o equilíbrio do mundo de acima e do mundo de baixo, que é o mesmo equilíbrio do universo.

O homem segue a procurar ruiria (petróleo), e em casa explosão que ocorre na selva, ouvimos a monstruosa pisada da morte que nos persegue através das montanhas. Este é nosso testamento. Ao ritmo em que o mundo vai, terá um dia em que o homem substituirá as montanhas do condor por montanhas de dinheiro. Então, esse homem já não terá a quem comprar nada; e se houvesse, esse homem já não teria nada a vender.

Quando chegar esse dia, será muito tarde para o homem meditar em sua loucura. Todas as ofertas financeiras sobre o que é sagrado para nós, como a terra e seu sangue, são um insulto para nossos ouvidos e um suborno para nossas crenças. Este mundo não foi criado pelo riowa, nem por nenhum de seus governos, por isso deve ser respeitado!

O universo pertence a Sira, e nós, U’WA, somos apenas administradores, somos somente uma corda do redondo tecido da irokua (mochila), mas o tecelão é Ele. Por isso, os U’WA não podemos ceder, maltratar, nem vender a terra, nem seu sangue, nem as suas criaturas, porque estes não são os princípios do tecido.

Mas o homem branco pensa que ele é o dono, explora e escraviza à sua maneira, isso não está certo: rompe o equilíbrio, rompe irokua. Se não podemos vender o que não nos pertence, não se adonem do que não se pode comprar.

Alguns chefes brancos horrorizaram a seu povo sobre nossa decisão de suicídio coletivo como último recurso para defender nossa mãe terra. Uma vez mais, nos apresentam como selvagens. Mas eles tentam confundir, desacreditar.

A todo seu povo, lhes dizemos: o U’WA se suicida pela vida, o branco se suicida por moedas. Quem é o selvagem? A humilhação do branco para com o índio não tem limites; não só não nos permitem viver, também nos dizem como devemos morrer. Não nos deixaram decidir sobre a vida, agora escolhemos, então, sobre nossa morte.

Durante mais de cinco séculos, cedemos frente ao homem branco, à sua ganância e às suas doenças, como o riacho cede à chegada do verão, como o dia cede à noite. O riowa nos condenou a viver como estranhos em nossa própria terra, nos encurralou em terras íngremes, muito próximas às rochas sagradas, das quais nosso cacique Guicanito e sua tribo saltou, para salvar a honra e a dignidade, frente ao feroz avanço do espanhol e do missioneiro.

Antes da cobiça e da humilhação, eles deram o nome de ações evangelizadoras ou civilizadoras, agora, o chamam de progresso. Progresso, aquele fantasma que ninguém vê e que se dedicou à aterrorizar a humanidade. Antes, o caminho sombrio do saque, do genocídio e da injustiça contra o nosso povo estava iluminado com o direito em nome de Deus e sua Majestade.

Hoje está iluminado com o petróleo em nome do progresso e da maior das majestades entre a maioria dos não indígenas: o dinheiro. Antes, era o ouro amarelo, agora, é o preto; mas a cor do sangue que se paga por eles segue sendo vermelha, segue sendo índia. Os U’WA vamos andar todos como se estivéssemos no mesmo caminho.

Entre nós, povo e autoridade são uma mesma família. Se chegou o momento de que nosso povo parta da terra, o fará com dignidade! O único que nos une com nossos irmãos brancos é virmos do mesmo pai (Sira) e da mesma mãe (Raira) e sermos amamentamos pelo mesmo seio (a terra). Compartilhamos o mesmo mundo físico: o sol, a lua, o vento, as estrelas, as montanhas, os rios. Compartilhamos o mesmo mundo físico, mas nosso sentimento em relação a ele é diferente.

A terra é uma flor: o U’WA aproxima-se para alimentar-se com o mesmo cuidado que o beija-flor, enquanto que para o homem branco é a flor que o porco selvagem pisa em seu caminho.

O caminho de riowa tem sido o dinheiro, é o seu meio, é seu fim, é sua língua, ele adoeceu o coração do nosso irmão branco e sua doença o levou a construir fábricas como armas, para derramar venenos como sangue. Sua doença chegou à água, ao ar e às nossas selvas.

Talvez mais uma vez o homem branco viole as leis de Sira, as leis da terra e até mesmo suas próprias leis. Mas o que ele nunca será capaz de evitar é a vergonha que seus filhos sentiram pelos pais que maltrataram o planeta, roubaram a terra do índio e a levaram à extinção; porque no final da noite fria, dolorosa e triste, infeliz pela terra e pelo índio, na mesma noite que parecia tão perene quanto a grama, o erro do homem será tal que nem mesmo seus próprios filhos estariam dispostos a seguir seus passos e será graças a eles, para esses novos filhos da terra que começarão a vislumbrar o declínio do reino da morte e a vida começará a florescer de novo. Porque não há verão eterno, nem espécie que possa se impor sobre a vida mesma.

Sempre que o homem atue com má intenção, mais cedo ou mais tarde ele terá que beber do veneno de sua própria pele, porque não se pode cortar a árvore sem que suas folhas também morram. Na passagem da vida, ninguém pode jogar pedras sem quebrar a quietude e o equilíbrio da água; por isso, quando nossos locais sagrados são invadidos com o cheiro do homem branco, o fim estará perto, não só do U’WA, mas também da riowa.

Quando ele tenha exterminado a última tribo do planeta, antes de começar a contar seus genocídios, será mais fácil começar a contar seus últimos dias. Quando esses tempos chegarem, os úteros de suas filhas não darão frutos, e em mais e mais vidas, o espírito de seus filhos não conhecerá a tranquilidade… Quando chegar a hora em que os índios ficaram sem terra, as árvores também ficarão sem folhas.

Então a humanidade se perguntará: por quê?… e apenas muito poucos entenderão que cada princípio tem seu fim e cada fim seu começo, porque na vida não há nada solto, nada que não esteja vinculado às leis da existência … a serpente terá que morder sua própria cauda para fechar seu ciclo de destruição e morte.

Porque tudo está entrelaçado, como o sendeiro enraizado do macaco. Talvez os U’WA possamos seguir nosso caminho, então, assim como os pássaros fazem suas longas jornadas com nada nas costas, nós seguiremos o nosso sem manter o menor ressentimento contra o riowa porque ele é nosso irmão.

Continuaremos a cantar para sustentar o equilíbrio da terra, não só para nós mesmos e para os nossos filhos, mas também para ele, porque ele também o necessita.

No coração do U’WA há preocupação tanto para os filhos do homem branco quanto para os nossos, porque sabemos que, quando os últimos índios e as últimas selvas estejam caindo, o destino de seus filhos e dos nossos serão um só. Se os U’WA podemos seguir o nosso caminho, não aprisionaremos as aves que nascem e fazem ninho em nosso território, será um só. Eles poderão visitar seu irmão branco se quiserem. Nem aprisionaremos o ar que nascerá em nossas montanhas, ele poderá seguir tonificando a alegria das crianças brancas e nossos rios deverão partir de nossas terras tão limpos quanto chegaram, então, a pureza dos rios falará aos homens de debaixo da terra de nosso perdão.

Cada vez que uma espécie se extingue, o homem acerca sua própria extinção, cada vez que um povo indígena se extingue, não é apenas uma tribo que se extingue, é um membro da grande família humana que deixou para sempre em uma viagem sem retorno.

Cada espécie extinta é uma ferida grave para a vida. O homem reduzirá a vida e a sobrevivência começará. Quem sabe antes a ganância tenha piedade dele e permita que ele veja a maravilha de um mundo e a grandeza de um universo que se estende além do diâmetro de uma moeda.

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